por que não fui megera nem suficientemente carinhosa

Mãe tem sempre a severidade de educar, exigir e um monte de mal entendidos todos que resultam em amor transbordando… Pensei, não consegui exercer isso… Primeiro tive filhos cedo demais, três em cinco anos / e, logo separei e ficou assim: um com cinco, outro com três e a caçula com um ano. Acabei embolada em decisões q não dependiam de mim / de certo modo / porque eu era, absolutamente, dependente do meu pai e da minha mãe. O pai das crianças, recolhia os três, religiosamente, sexta-feira a noite, ou no sábado bem cedo… Devolvia no final do domingos: necessitados de banho e sono. Eu? Um ano depois, divorciada, fui terminar meu curso e trabalhar… Entramos todos em rotina aquartelada. No verão, todos, terminados os festejos natalinos e fins de ano / para cada dos meus pais, a Varig nos levava direto pro Rio Grande do Sul, Porto Alegre, depois Torres: o mar, o veraneio. Entraria eu também em férias? Minha mãe e meu pai cuidavam de tudo. Aonde acumulei os beijos e os mimos, as vontades e as brigas com eles? Nada era decidido por mim, ou muito pouco. Estou pensando nisso. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres – um amanhecer cinzento, mas quente, meio pode ser chuva, talvez.

sono que não me quer

…conversa que não termina, atalho esquisito: fazer, fazer, fazer fica, ali, um fazendo parado.

meu querido, saudade eu sinto… estás tão longe! nenhuma lembrança me agarra com ternura, estou no vazio, sento ciúmes… egoísta escolhi diferente… o conselho? escolher ficar, apesar do pesar, ficar, o silêncio de se ser sozinho atordoa, te confesso. sinto também saudade dos pequenos cinamomos. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

Carlos LACERDA

Quando viajo para bem longe é que me sinto mais perto de mim, das minhas inexploradas origens. Remonto as nascentes de um rio que flui sem saber para onde, no traço da sua itinerante fantasia. Do alto do avião se vê bem como os rios inventam seus caminhos; e raramente improvisam. Seu curso caprichoso na baixada, seu festival de curvas na calmaria dos brejos não era bem assim na serra de onde veio; ali ele só tem caminho para passar.

Não é à toa que aquele escritor francês diz: o patriotismo é o que a gente lembra da infância. minha pátria são árvores enormes. As pessoas sucederam-se como quem rende a guarda e nem todas eram amenas e repousantes. […] Minha pátria são cheiros e sons, são cores ora vivas ora desbotadas, monólogos de melancolia logo espantada por inopinados encontros. (p.15) Carlos Lacerda A Casa do Meu Avô

livros me interessam

livros me interessam sempre, política também, sol também e a chuva, então, renova… pensar é como ver / cuidar / tratar do jardim… um descuido e já está cheio de ervas daninhas… cuidar sempre. faz pouco pensei no pai e na mãe e nas mortes… sucessivas, pacíficas e misteriosas… pois é, serem misteriosas inquietam. nenhum dos três deveriam ter ido / foram empurrados, desavisados, feito dominó. uma peça e outra e outra… e a mesa do jogo ficou em ordem, razoavelmente em ordem. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres com tempo, bastante tempo para pensar… eu, também sou apegada a ser eu, como eles eram… desapegados materialmente, mas apegados a vida, muito.

Mulher bonita, minha mãe – estava assim qdo morreu, linda. Minha Luiza com um ano… A vida começando! Estou pensando…

pandorgas / papagaios

felicidade / alegria da cor alegrando o céu azul, ainda, não cinzento. esconde o alaranjado ou quem sabe o vermelho que eu procuro: quantas cores possíveis no céu / no mar e no sal… e na risada feliz que despejas na areia, agora. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres veraneando gostoso neste verão.

QUE FAZER?

Será que se deve continuar. Questões moais e dúvidas: ou bem isso ou bem aquilo: e assim por diante, até que surja, finalmente, de uma cascata de alternativas, um ato puro – isento de qualquer remorso, de qualquer hesitação. Não é nada fácil decidir, escolher, nem enfrentar o não tanto quanto sim… minha escolha, não o brinquedo do acaso… vai que era e não quero, ou quero e nem foi? Se eu amo: ou bem tenho esperança e então vou agir; ou bem não tenho nenhuma esperança, renuncio…. ainda, não tenho nenhuma esperança, mas contudo… obstinadamente, escolho não escolher, escolho a deriva: eu continuo. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

pensar não é razoável

pensar se tornou jeito fácil de se atordoar… as conexões enlouqueceram: mistura de cor riso alegre com riso nervoso. aos poucos desaprendo a historia (começo / meio e fim) / Carol, socorro? Preciso de ajuda. Lembras? Ordenar um livro, alinhavar um conteúdo, separar histórias de estórias, emoções de verdades. T/á confuso. política deixouou de significar, virou remexer talheres, acomodar empatias / que graça! afirmo que detesto mingau, talvez uma canja, ou quem sabe um sagu. quero meus velhos autores, aqueles que eu me envolvi de amor / de escancarando… Fui visitar, na Noruega. viajei / atravessei mares. agora esta coisa de roupas, as roupas? deveria arrumar o armário? limpar as louças e fazer comida? tá fácil comprar prato pronto. mas, mas estou a engordar mesmo fazendo academia… estou arredondando. será bom? um chá me salvaria / uma tarde de silêncio / nenhum investimento, nem dever dinheiro, caminho perigoso… os bancos fazem coisas incríveis! / floresta/ dança/ canto desafinado. Tá tudo errado. Estou apavorada. Tenho que endireitar o tempo, as contas e as tardes. Mais sono, sono fora de lugar, sono de brincar não de dormir. Será que o mundo vai aceitar a paz / teremos paz e dignidade ou a guerra será em baixo / por baixo do tapete. brincadeirinha. Arrepiar / assustar a notícia. Vou me enfiar nos lençóis e ficar quieta / talvez acorde nova / diferente. aqueles bons milagres. quero escrever um texto / dizer que acredito e dizer, também, que vou me esforçar. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2025 Torres com sol / deveria dar certo pensar? e se não mudar nada. só flutuamos? vou correr para o mar / de manhã e de tarde. viva o mar! vou apenas descansar.

brincadeirinha pra cá e pra lá

os nomes voam, voarão, e se repetem, os mesmos.tr oca isso e troca aquilo. um é estátua, o outro dá o grito, alto, escondido não, não te mexe, não te mexe, ou sai do jogo… tudo com sol, exercícios e vigilância… não tem mais graça, nem piada, nem certezas, é sério: agora te faz de morto… ah! brincadeirinha cruel de vingar… quem disse que viver é coisa séria? eu vou é me vingar! Elizabeth M, B. Mattos – janeiro de 2026 – Torres

organizações

as organizações estão mesmo cada vez mais organizadas, a inquietude já não causa espanto nenhum. os desencontros muito bem compreendidos e os espaços, suficientemente, arejados. ao saber/ gosto das palavras, dos bons exercícios… claro, acordos fotografados, com mulheres ou sem mulheres, divulgações adequadas. respostas para cá, respostas para lá: abacaxi e verão. segue o rumo e o tédio: envelhecer tem gosto de adoecer e a conversa cheiro azedo, desesperado, suficientemente, investigado. Elizabeth M. B. Mattos – janeiro – 2026 – Torres com gritaria de criança no corredor.